“Mais do que uma discussão trabalhista, a possível mudança expõe a necessidade urgente de aumentar a produtividade e modernizar a forma como muitas empresas operam.”
A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou espaço no noticiário, nas redes sociais e nas rodas de conversa de empresários em todo o país. Naturalmente, a primeira preocupação de muitos gestores está relacionada ao impacto financeiro que uma eventual mudança poderá causar nas operações, especialmente em setores que dependem de atendimento constante e equipes presenciais.
É uma preocupação válida.
Mas talvez estejamos olhando para a questão pelo ângulo errado.
O debate sobre a jornada de trabalho traz à tona uma realidade que já vinha se desenhando há alguns anos: o modelo de crescimento baseado apenas em mais horas de trabalho está ficando para trás.
Durante muito tempo, a solução para aumentar a produção ou ampliar o atendimento foi simples. Contratava-se mais gente, estendiam-se jornadas, acumulavam-se tarefas e, de alguma forma, o negócio continuava funcionando.
O problema é que o mercado mudou.
Os custos aumentaram. A concorrência ficou mais intensa. O consumidor tornou-se mais exigente. E a velocidade das transformações tecnológicas passou a exigir das empresas algo que antes não era tão decisivo: eficiência.
É justamente por isso que o possível fim da escala 6×1 provoca tanto impacto. Não apenas porque altera uma rotina de trabalho consolidada em diversos setores, mas porque obriga empresas a revisarem processos que muitas vezes já deveriam ter sido repensados.
A pergunta que surge não é quantos dias o colaborador ficará na empresa. A pergunta é como a empresa está utilizando o tempo que já possui.
Quando observamos negócios altamente produtivos, percebemos que eles não necessariamente trabalham mais. Na maioria das vezes, eles trabalham melhor.
São empresas que utilizam tecnologia para eliminar tarefas repetitivas, que organizam suas oportunidades comerciais em sistemas de CRM, que automatizam atendimentos, acompanham indicadores e tomam decisões com base em dados.
Enquanto algumas organizações ainda controlam vendas em planilhas ou dependem exclusivamente da memória dos vendedores, outras já utilizam inteligência artificial para qualificar clientes, automatizar respostas, acompanhar negociações e identificar oportunidades de negócio em tempo real.
A diferença entre elas não está apenas na tecnologia. Está na mentalidade.
A tecnologia é apenas a ferramenta. O verdadeiro diferencial está na disposição de rever processos, abandonar velhos hábitos e buscar formas mais inteligentes de operar.
Isso também vale para a gestão de pessoas.
Muitas empresas descobriram nos últimos anos que produtividade não é sinônimo de presença física constante. Equipes bem treinadas, com metas claras, processos definidos e acesso às ferramentas corretas conseguem entregar mais resultados do que equipes maiores trabalhando de forma desorganizada.
Por isso, quando falamos sobre o futuro das empresas, talvez a conversa precise sair da quantidade de horas trabalhadas e migrar para a qualidade da operação.
Automação, inteligência artificial, CRM, atendimento digital, integração de processos e capacitação comercial deixaram de ser diferenciais competitivos para se tornarem elementos cada vez mais necessários para a sustentabilidade dos negócios.
Independentemente do destino da proposta que discute o fim da escala 6×1, uma mensagem já está clara para o mercado.
As empresas que aprenderem a produzir mais valor com menos desperdício estarão mais preparadas para crescer.
As que continuarem dependendo exclusivamente de mais horas, mais esforço e mais pessoas para resolver problemas operacionais tendem a enfrentar dificuldades cada vez maiores.
Talvez o maior legado dessa discussão não seja a mudança na legislação.
Talvez seja o convite para que empresários reflitam sobre uma pergunta simples, mas decisiva:
Se amanhã sua empresa precisasse gerar os mesmos resultados com menos tempo disponível, ela estaria preparada para isso?
A resposta pode dizer muito sobre o futuro do seu negócio.
Rômulo Rampini é estrategista digital, diretor da 3TRÊS Marketing & Digital e consultor credenciado Sebrae MT.